São Paulo, 30 de março de 2004.

E dá para mudar?

Em 1989 ouvia-se nas ruas que se o Lula fosse eleito presidente as pessoas teriam que dividir suas coisas, dividir suas propriedades, seus bens, seus pertences mais absurdos, como o aparelho de som, o carro, a casa na praia, etc. Ao que parece acreditaram. Ouvia-se a adolescente saindo do colégio bem caro, comentando com a amiga ao lado: "Meu pai trabalhou muito pra ter o que a gente tem, e não serão uns pés-rapados que virão tirar o que é nosso"... Infelizmente, minha filha, seu pai trabalhou tanto que esqueceu de te ensinar alguns fundamentos básicos de cidadania e civilidade...
Enfim, já adianto que este escrito não terá a intenção de se transformar num manifesto socialista, comunista, ou qualquer idéia mirabolante para a solução dos problemas do mundo e do Brasil.
O que quero dizer é que creio que as coisas não mudaram, e até pioraram, porque as pessoas continuam fechadas em seu mundo. Incluo-me nesse meio, "méa-culpa" também.
Hoje Lula é o presidente, pelo mesmo motivo que Collor foi, carregando a esperança que a maioria da população foi levada a acreditar, que eles eram a bola da vez, e que os sacos estavam muito cheios das mesmices que vinham ocorrendo. E não coloco as classes poderosas como principais responsáveis pelos feitos. O que acho é que o brasileiro é, basicamente, acomodado. Preocupa-se mais com idiotices do que com o principal. Perde boas horas de sono para saber quem será o eliminado de um certo programa estúpido, do que procura um curso de especialização na função que executa em sua empresa. Preocupa-se mais em chegar a tempo de ver o futebol da seleção do que com o filho que anda com algumas companhias estranhas e suspeitas.
Isso não é regra geral, mas às vezes ouço tantas besteiras que tento encontrar, na própria atitude das pessoas, uma razão para que a coisa esteja tão desandada, tão largada, tão ruim mesmo...
As pessoas menos instruídas continuam sendo abusadas em seu trabalho (quando os têm), com pagamentos medíocres, com abuso de horas extras, com benefícios ridículos, com aumentos inexpressivos, e continuam culpando ao Criador por todos os infortúnios. É mais fácil a pessoa levar a carteira de trabalho para o Padre Marcelo abençoar, do que abri-la, e ler a declaração universal dos direitos do homem, impressas em letras bastante legíveis.
O que acho é que esse país está cada vez mais fofoqueiro. Falando às claras, mal de tudo e de todos, e jamais se habilitando a dar uma solução para este ou aquele problema. Digno de pena de morte é o bandido que mata uma família, mas o político que desviou uma verba e matou indiretamente uma dúzia de famílias é outro papo, porque esse papo é muito complicado, entende? Vá você ou outro sentar-se lá, tomar as decisões, resolver os problemas de todos, oras... Afasta de mim este cálice, Pai...
Fácil é você falar que seu vizinho ficou metido depois de ter sido promovido, comprou um carro melhor. Mas difícil é lembrar que o cara saía às quatro da manhã de casa, trabalhava, estudava, e chegava à meia-noite, cansado e esfarrapado, pronto para o outro dia, enquanto os amigos festejavam as alegrias da vida no boteco da esquina... E isso acontece o tempo todo, e, infelizmente, nem todas as pessoas que batalham pela melhora conseguem, mesmo assim não desistem...
E é isso que acho... Acho que, se as pessoas pararem de achar que fazem a sua parte vivendo apenas suas vidinhas, a tendência será piorar, e mais e mais pagarão por esta inércia que já nascemos sabendo como funciona...Não sei se ainda dá tempo, mas não custa começar, certo?

 

Marcos Claudino (mc02@uol.com.br), 34 anos, profissional de RH, acha que seus ouvidos transformaram-se em penicos, continua metido a besta, e acha que está falando com as paredes...