São Paulo, 14 de janeiro de 2004.

EMPREENDEDORES - SOBREVIVENTES

Balinhas de Farol. Isso mesmo. Sabe aquelas balinhas que os garotos penduram no nosso retrovisor? Custam um real. Algumas vêm acompanhadas de uma caneta. A primeira vez, confesso, comprei porque precisava de uma caneta. Tudo bem que a mesma tem o prazo de validade de três dias, no máximo. O fato é que gostei das balinhas. Têm sabor de frutas diferentes, como melão, manga, pêssego, etc. Não sei a origem, sei que são difíceis de abrir a embalagem. Mas compro sim, confesso. Sempre que encontro um real no bolso, compro mesmo, sem dó... Prefiro estes aos garotinhos esfarrapados, vigiados pelos pais, do outro lado da rua...
Guarda-chuva. Tenho um enorme guarda-chuva, comprado há mais de três anos, também num farol. Há vários modelos, cores, mas todos, sem exceção, são enormes. Eles vêm e pedem quinze reais. Vêm que você está interessado, você nega a compra, e por fim, pode adquiri-los por até cinco reais.
O Shopping dos pobres. Em certas ocasiões, precisei utilizar os serviços do transporte ferroviário paulistano. Pra ser mais exato, da Fepasa. São trens modernos, com até ar condicionado. Chegam às estações, apitam, fecham as portas e saem. Quando começa a andar, aproximadamente um terço dos "passageiros" que estavam sentados, levantam-se e começam a oferecer seus produtos. Você pode tomar uma cervejinha geladinha, a um real. Também vendem chocolates de todos os tipos, balas, bombons, palavras cruzadas, canetas (sempre elas), e até jogos eletrônicos e rádios do tamanho de uma caixa de fósforo a (pasmem) cinco reais. A qualidade e durabilidade é pífia. A garantia "soi jo" é prache, mas, no caso de defeito no aparelho, você pode dar a sorte de encontrar o mesmo vendedor e trocar, isso se ele ainda estiver vendendo o produto. No início do ano, você encontra agendas, cadernos universitários, fichários e afins. Tudo isso, sem sair do seu lugar, sem levantar do desconfortável bando de plástico. Conforto garantido. Impressiona-me a habilidade que esses empreendedores têm em manter-se atentos à presença da fiscalização que, por sinal, não faz muita força em encontrá-los. Pode ser pelo fato de que já estão abonados com seu pedágio obrigatório. Prefiro todos esses, aos garotos, supostos "surdos-mudos" , que deixam uma xerox de um bilhetinho mal escrito, explicando que sustentam a família, sete irmãos mais novos, a mãe doente, etc. Estranho é que geralmente eles têm cinco anos de idade, no máximo, e têm seis ou sete irmãos mais novos... Mais estranho é que não colocam no bilhete que o pai encontra-se num bar sujo, tomando quase todo o soldo diário recebido pelo garoto...
Loucura de gente. Ir à Galeria Pajé é encontrar uma loucura de gente, gritos, ofertas imperdíveis no meio da rua, nas calçadas, no subsolo, etc. Lojas de seis metros quadrados, com todas as novidades eletrônicas que a China pode produzir. Vendedores que não entendem, ou fingem não entender sua língua, quando se trata de um desconto ou um defeito, mas que aprendem rapidamente, quando nos interessamos por algum produto. Precisei passar por lá uma vez, quando comprei um toca fitas sem a frente. Não aceitam cheques nem cartões de crédito. Só dinheiro na mão. Pode ser que a frente de meu rádio fosse a dele mesmo, mas a indústria do furto é extremamente organizada, e eu jamais saberei. O certo é que pensei que gastaria uma quantia, e gastei o dobro. Comboios fardados aproximam-se, o primeiro camelô da rua grita "Rapa!!!" e lá vai a turba de gente e parafernálias correndo pelas proximidades da 25 de Março, arrastando e derrubando seus produtos, e as pessoas desavisadas pelo caminho. Após alguns minutos a "paz" volta, os ambulantes reinstalam suas lojas ao ar livre, e a vida segue seu rumo.
Teríamos mais alguns exemplos a citar, como o Largo Treze de Maio, em Santo Amaro, as ruas do Centro Velho, Barão de Itapetininga, os insuportáveis flanelinhas em toda parte, os carregadores de celular, limpadores de pára-brisa, flanelas, protetores solares, nos faróis, enfim, tudo que a lei não permite, mas que consumimos, sem dó, contrariando qualquer noção de cidadania, qualquer perspectiva de ajuste em nossa economia comercial.
O povo quer consumir, os pobres querem comprar, adquirir, ou seja, querem uma gratificação por tanto esforço para sobreviver, e as lojas convencionais, com seus impostos e custos embutidos em todo e qualquer produto, não permitem o acesso dessa grande maioria. Condená-los? Criticá-los? Hipocrisia, falta de compreensão, preconceito... A mídia sempre dará a falsa noção da importância do "ter", do que do "ser". Todos assistem a tudo e concordam. O BBB bate recordes de audiência a cada nova (velha) versão. Produz mais sete ou oito capas de Playboy, forma mais um semi-milionário, e traz aos programécos da TV aberta, invariavelmente, essas mesmas pessoas, donas de talento nenhum, mas famosos pela bondade e benevolência da Vênus Platinada. As novelas, o tempo todo, com seus atores de verdade dando lugar aos "modelos-atores", mostrando seu talento glúteo, incentivando a importância do status, do cartaz, de ser notícia a qualquer preço, por mais vazio que seja seu papel...
Então, irmão, exigir da população desinteressada (porque queremos que assim ela seja), um nível de conscientização que nem nós, os "esclarecidos" temos ou queremos ter, seria como ganhar com um único bilhete numa loteria de trilhões de apostadores... Ainda acho que depende de nós... Vamos nessa?
Abração!!

Marcos Claudino (mc02@uol.com.br), profissional de RH, 34 anos, não pode participar do BBB, pois é funcionário de uma das empresas Marinho, mas, se fosse chamado, iria sim senhor, mas tem certeza que não duraria uma semana por lá. Aí então, imaginem como o cara seria metido a besta, hein? E haja Kaiser!!!