








As
Lições da Lingüística |
Marcelo
Cortimiglia |
Minha noiva estuda Letras. Recentemente, resolvi discutir Lingüística com ela. Foi uma conversa complicada, cheia de termos técnicos, teorias e paradigmas carregados de subjetivismo que deram um nó em minha mente prática e positivista de engenheiro. Confesso, entretanto, que aprendi muitas coisas curiosas nessa conversa. Duas são particularmente interessantes do ponto de vista da cultura de jogos e RPG, e vou compartilhá-las com vocês nesta brainstorm. Proteção de Nichos A primeira das lições diz respeito aos “nichos”. Explico: me dei conta que, se alguém estuda exaustivamente determinado assunto na faculdade durante cinco anos, é bastante provável que aquele alguém venha a saber mais sobre o tal determinado assunto do que você, um leigo-metido-a-besta-sabe-tudo. Sim, ela me deu um *banho* sobre Lingüística, e me fez aprender a não dar uma de “sabichão” no nicho dela. De certa forma, essa lição pode ser extrapolada para o RPG. A estrutura básica de um típico grupo de personagens D&D, por exemplo, demonstra a preocupação com a proteção dos nichos. Vejam: em linhas gerais, o guerreiro luta, o mago pensa, o ladrão se esgueira e o clérigo cura. Claro, existem variações, mas a idéia é essa: cada um na sua, e quanto menos um invadir a praia do outro, melhor. Melhor? Sim. Por um lado, cada um dos personagens vai brilhar em determinado momento da aventura e, por outro lado, todos se complementam em suas habilidades e capacidades, formando um grupo competente na totalidade. Ou seja, respeitem os nichos uns dos outros e todos serão felizes (pelo menos até inventarem as multi-classes). Analisando superficialmente, o conceito de proteção de nichos é relativamente intuitivo e, de certa forma, positivo, pois colabora para a diversão de todos. Até o Mestre tem seu trabalho simplificado, já que ele sabe de antemão quem vai resolver (ou tentar resolver) cada desfio lançado, e como. Refletindo mais sobre o assunto, me dei conta que sistemas com classes ou similares se prestam muito bem à proteção de nichos. Já na criação dos personagens são definidos os papéis que cada um vai ocupar no grupo, e a própria mecânica de regras se ocupa da separação dos nichos sem requerer muito esforço ativo por parte dos jogadores: os personagens tendem a possuir um mínimo de habilidades redundantes dentro do mesmo grupo, e a evolução destes personagens é usualmente direcionada para o aperfeiçoamento e especialização nestas habilidades e características não-redundantes. E isso é bom, ainda mais quando se está iniciando no RPG. Apesar do d20 ser o exemplo mais clássico – e popular – de um sistema voltado para a proteção de nichos, há outros: em Call of Cthulhu, por exemplo, o jogador é obrigado a escolher uma “ocupação” durante a criação dos personagens, e há recomendações específicas no texto para limitar o número de personagens de uma mesma ocupação, ou de ocupações afins, no grupo. Outro exemplo interessante é Vampiro & Cia. (e outros RPGs darks menos conceituados, eu diria), nos quais é preciso selecionar um clã/tribo/facção/grupo/time que, além de garantir muitas horas de conspiração e jogo de poder político (!), compartimentaliza a variabilidade de interpretação em “arquétipos” pré-definidos simples de entender e excelentes para fins de proteção de nichos. Finalmente, em Ars Magica deve-se escolher uma Casa Hermética para seu mago que – na melhor tradição Mark-Bolinha -, “arquetipa” os magos da mesma maneira que seus colegas vampiros e lobisomens. Em suma, as classes ou similares podem ser enxergadas como excelentes ferramentas de proteção de nicho, além de facilitadores da percepção do jogador a respeito do personagem. A proteção de nichos tem, ainda, outra vantagem sutil: ela impede a competição. O RPG é, sabe-se, um jogo voltado para a cooperação. Mas, também sabemos, a natureza humana pode se mostrar bastante competitiva, ainda mais quando o caldeirão de hormônios ferve no sangue adolescente. A proteção de nichos tende a dificultar a competição, pois minimiza a possibilidade dos personagens terem habilidades parecidas e que, por isso, comecem a competir para ver “quem é o melhor”. O conceito de proteção de nichos, entretanto, não deixa de ter suas fraquezas. Uma delas é simplificar em demasia os conceitos de personagens através da mecânica de classes. Em outras palavras, a velha crítica de que “todos os guerreiros são iguais”. Sem entrar no mérito da questão, é fato que os sistemas de classes, enquanto privilegiam a proteção de nichos, em geral permitem flexibilidade menor do que os sistemas de pontos de personagem, como GURPS ou OPERA. Outro ponto fraco da proteção de nichos envolve a realidade, ou verossimilhança, da formação do grupo. Afinal... qual seria a justificativa prática para juntar pessoas com visões de mundo tão diferentes quanto um guerreiro, um ladrão, um mago e um clérigo??? Me parece muito mais fácil justificar laços de amizade, ou mesmo proximidade de interesses, entre pessoas de “profissões” iguais ou parecidas. No fim das contas, toda aquela conversa sobre Lingüística me fez ver que a proteção de nichos é um conceito bastante importante no RPG. Se é bom ou mau, depende – como tudo na vida, não? –, mas sem dúvida deve ser considerado por mestres e jogadores, especialmente na escolha do sistema de regras e na etapa de criação dos personagens. O Português e os Jogos A segunda lição que eu tirei da minha aula de Lingüística é a de que as línguas podem ter estruturas bastante distintas entre si e, por isso, serem mais adequadas à determinada visão de mundo e função de linguagem. As línguas latinas, por exemplo, são bastante apropriadas para a linguagem subjetiva e metafórica. O alemão e o inglês, por sua vez, são muito mais objetivas, e se prestam melhor para a linguagem técnica e objetiva. Em línguas como essas, cada palavra costuma ter um significado bem específico e, por vezes, carregado de sutileza. Refletindo sobre isso, cheguei num exemplo da nossa área envolvendo as palavras gamer e player. Embora ambos os termos possam ser traduzidos para o português como “jogador”, os significados são suficientemente distintos para que possamos estabelecer uma reflexão curiosa. Em inglês, player é normalmente usado para designar os atores de um jogo, as pessoas que efetivamente jogam e participam de uma partida. Gamer, por sua vez, tem um sentido mais amplo, e costuma ser usado para se referir ao indivíduo enquanto participante da cultura de jogo como um todo. Em português, entretanto, usamos jogador em ambos os casos. Na verdade, a acepção mais comum no português refere-se ao primeiro conceito, jogador como ator do jogo. O aspecto da cultura de jogos, em nossa língua, é discreto. Toda aquela discussão lingüística me deixou pensando, intrigado, em porque temos tão pouca tradição de jogos – não só de RPG, mas principalmente de jogos de tabuleiro. A percepção que tenho me faz pensar que, nos países de língua anglo-saxônica, os jogos são encarados com muito mais seriedade do que aqui nos trópicos ou mesmo em Portugal, o primo pobre da Europa do qual descendemos. Talvez, e bota talvez nisso, essa diferença no modo de encarar o lúdico e a diversão, com desdobramentos até na própria linguagem, reflita a diferença de entendimento do que representam as regras e leis nestas sociedades. No Brasil, por exemplo, é bastante comum a noção de que algumas leis “não pegam” e, com o tempo, “saem de moda”, um conceito totalmente alienígena para os sisudos ingleses, para os conservadores norte-americanos ou para os disciplinados germânicos. Na Alemanha, inclusive, um dos mais famosos berços de jogos do mundo, a seriedade com que lá se encara a lei é notória. Este tipo de atitude, cristalizada nestas sociedades através da educação e tradição, reflete-se no modo de brincar de crianças e jovens. Por isso, talvez (e vejam quantos “talvez” eu usei neste parágrafo!!!), a cultura dos jogos seja tão difundida nestes países. Ou talvez seja porque eles têm mais dinheiro e tempo livre para gastar em hobbies como os jogos... Ou talvez seja porque eles têm um inverno mais rigoroso e, por isso, precisam de mais alternativas de diversão dentro de casa... A questão é intrigante, e não sei se encontrei uma resposta depois de tanta brainstorm. Bom, é possível – e bastante provável – que eu tenha incorrido em besteiras gigantescas... De qualquer forma, foi uma divagação proveitosa, espero que vocês tenham aproveitado também. E espero não ter nvadido o nicho de nenhum antropólogo por aí... Até a próxima!
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