







Eles
são muitos... No começo do século vivíamos uma
civilização ditada pelos costumes europeus e norte-americanos.
Cheirávamos rapé, bebíamos vinho do porto e tocávamos
piano em pleno parque do Trianon. Hoje em dia o quadro mudou um pouco: incorporamos
outras coisas à nossa vida, buscamos as raízes milenares de
outras culturas para justificar os vícios com os quais impregnamos
nossas vidas em um esforço descomunal de dar um porque plausível
para as novas fraquezas que estão aí, alterando nossa consciência
e percepção do mundo.
Cigarro, bebida... Drogas em geral... Piercings e tatuagens... Todos esses
recursos modernos são usados e abraçados pela juventude de um
mundo até certo ponto cosmopolita, mas de valores definitivamente superficiais.

O engraçado
é que hesitamos absolutamente em admitir nossos valores erráticos,
justificando-os e criando nossa intelectualidade de massa e grupos que amparam
e partilham de pontos de vista, enfim, um discurso já bem conhecido
e que não farei novamente. O fato é que temos plena consciência
de nossa vontade de poder escolher, mas admitimos o fato de jogarmos tóxicos
dentro de nós que causarão dependência... Que quebrarão
nossa espontaneidade nos colocando em rituais para nossa vida moderna onde,
apesar de usarmos entorpecentes milenares e buscarmos justificativas em razões
mais antigas ainda, não possuem quase nada mais do significado que
tinham antes. Eles se enquadram em nosso contexto de vida onde a busca pelo
prazer, pela aprovação nas rodas sociais e pelo charme (alguma
forma desesperada de buscarmos atrativos para fazermos outras pessoas se interessarem
por nós) rege tudo. Não há mais a pessoa que busca apenas
ser como é... Viver as sensações que a vida lhe proporciona
sem buscar consolo em algum tipo de ingerível, inalável ou injetável.
As bebidas, com todos os seus segredos de fabricação, são
tomadas a grandes goladas por qualquer um, sem cerimônia ou reconhecimento
do sabor. Bebemos o vinho Sangue de Boi e tampamos o garrafão com uma
folha de papel amassada em bola (porque tampamos? A maior parte sequer sabe
a utilidade, e acredita que seja para evitar que moscas caiam na bebida).
Os inaláveis, fumos de todo o tipo, fazem parte de nossa vida, mas
agora desprovidos de seu papel espiritual. Muitos usam a desculpa do "se
sentir bem" ou do "mito de libertação da mente",
mas o fumo é o que é: a mais social de todas as drogas. Começamos
a fumar para nos sentirmos parte de algo, e mesmo depois, quando achamos uma
idiotice e percebemos nossa dependência, continuamos. Não nos
achamos em posição de orientar os outros para se afastarem de
nossa droga preferida porque nos consideramos hipócritas... Onde está
a verdadeira hipocrisia? Na omissão de nossos conselhos o no aconselhamento
em si? O fumante vive sem conflito com seu vício. Ele aceita, mas não
concorda. Finalmente, quando indagado, questionado, ele se irrita e afasta
o conflito... ou admite pacificamente todos os males que seu hábito
lhe causa ou causa aos outros, enquanto estende as mãos em busca de
mais um cigarro de seu maço.
As drogas modernas, refinadas e mil vezes mais fortes... Injetáveis
em sua grande maioria, mas também inaláveis e ingeríveis...
De todos os grupos de drogados, talvez esses sejam os mais sinceros. Aqui
não há filosofia para camuflar. A história recente dos
entorpecentes refinados não permite a existência de uma tradição
ou costume ancestral atrás do qual jogar a desculpa de nossa fraqueza,
o que faz aqueles que consomem esse tipo de tóxico assumirem que o
fazem apenas pela sensação gerada, e nada mais. Eles admitem
a própria fraqueza hipócrita, mas o claro dano feito e amplificado
em seus tecidos vitais é evidente... Todos temem as drogas modernas,
até mesmo aqueles que as tomam... Mas assim como os fumantes, esse
medo é algo distante e subjetivo até que se torne parte da realidade:
então ele passa a ser aceito passivamente.
E tudo isso é apenas um motivo para me sentir vazio. Cada um dos pequenos
vícios é mais uma capa... A camada de celofane flavorizado artificialmente
que impede nossa língua de sentir o gosto verdadeiro da vida... Mas
nos dá toda a ilusão de um sabor amplificado que supera a percepção
de todos os demais e nos ajuda a degustar a realidade insossa onde cultivamos
nossas almas.
The Dope Show
The drugs
they say
Make us feel so hollow
We love in vain
Narcissistic and so shallow
The cops and queers
To swim you have to swallow
Hate today
There's no love for tomorrow
We're all stars now in the dope show
There's
lots of pretty, pretty ones
That want to get you high
But all the pretty, pretty ones
Will leave you low
And blow your mind
We're all stars now in the dope show
They
love you when you're on all the covers
When you're not then they love another
The drugs
they say
Are made in California
We love your face
We'd really like to sell you
The cops and queers
Make good-looking models
I hate today
Who will I wake up with tomorrow?
There's
lots of pretty, pretty ones
That want to get you high
But all the pretty, pretty ones
Will leave you low
And blow your mind
They
love you when you're on all the covers
When you're not then they love another
We're all stars now in the dope show
Marilyn Manson
Somos todos estrelas agora... Cada um com seu vício... Sua camuflagem
deplorável para maquilar os medos e as vergonhas... Para afugentar
nossos sentimentos verdadeiros e transformar a existência no savoir
faire de se lidar com um mundo artificial.
"To swim you have to swallow".
Engolimos tanto que nos afogamos no mar de nossos falsos cachimbos da paz.