Eles são muitos... No começo do século vivíamos uma civilização ditada pelos costumes europeus e norte-americanos. Cheirávamos rapé, bebíamos vinho do porto e tocávamos piano em pleno parque do Trianon. Hoje em dia o quadro mudou um pouco: incorporamos outras coisas à nossa vida, buscamos as raízes milenares de outras culturas para justificar os vícios com os quais impregnamos nossas vidas em um esforço descomunal de dar um porque plausível para as novas fraquezas que estão aí, alterando nossa consciência e percepção do mundo.
Cigarro, bebida... Drogas em geral... Piercings e tatuagens... Todos esses recursos modernos são usados e abraçados pela juventude de um mundo até certo ponto cosmopolita, mas de valores definitivamente superficiais.

Nossos Rituais Modernos
por Filipe Zanatta Santos

O engraçado é que hesitamos absolutamente em admitir nossos valores erráticos, justificando-os e criando nossa intelectualidade de massa e grupos que amparam e partilham de pontos de vista, enfim, um discurso já bem conhecido e que não farei novamente. O fato é que temos plena consciência de nossa vontade de poder escolher, mas admitimos o fato de jogarmos tóxicos dentro de nós que causarão dependência... Que quebrarão nossa espontaneidade nos colocando em rituais para nossa vida moderna onde, apesar de usarmos entorpecentes milenares e buscarmos justificativas em razões mais antigas ainda, não possuem quase nada mais do significado que tinham antes. Eles se enquadram em nosso contexto de vida onde a busca pelo prazer, pela aprovação nas rodas sociais e pelo charme (alguma forma desesperada de buscarmos atrativos para fazermos outras pessoas se interessarem por nós) rege tudo. Não há mais a pessoa que busca apenas ser como é... Viver as sensações que a vida lhe proporciona sem buscar consolo em algum tipo de ingerível, inalável ou injetável.
As bebidas, com todos os seus segredos de fabricação, são tomadas a grandes goladas por qualquer um, sem cerimônia ou reconhecimento do sabor. Bebemos o vinho Sangue de Boi e tampamos o garrafão com uma folha de papel amassada em bola (porque tampamos? A maior parte sequer sabe a utilidade, e acredita que seja para evitar que moscas caiam na bebida).
Os inaláveis, fumos de todo o tipo, fazem parte de nossa vida, mas agora desprovidos de seu papel espiritual. Muitos usam a desculpa do "se sentir bem" ou do "mito de libertação da mente", mas o fumo é o que é: a mais social de todas as drogas. Começamos a fumar para nos sentirmos parte de algo, e mesmo depois, quando achamos uma idiotice e percebemos nossa dependência, continuamos. Não nos achamos em posição de orientar os outros para se afastarem de nossa droga preferida porque nos consideramos hipócritas... Onde está a verdadeira hipocrisia? Na omissão de nossos conselhos o no aconselhamento em si? O fumante vive sem conflito com seu vício. Ele aceita, mas não concorda. Finalmente, quando indagado, questionado, ele se irrita e afasta o conflito... ou admite pacificamente todos os males que seu hábito lhe causa ou causa aos outros, enquanto estende as mãos em busca de mais um cigarro de seu maço.
As drogas modernas, refinadas e mil vezes mais fortes... Injetáveis em sua grande maioria, mas também inaláveis e ingeríveis... De todos os grupos de drogados, talvez esses sejam os mais sinceros. Aqui não há filosofia para camuflar. A história recente dos entorpecentes refinados não permite a existência de uma tradição ou costume ancestral atrás do qual jogar a desculpa de nossa fraqueza, o que faz aqueles que consomem esse tipo de tóxico assumirem que o fazem apenas pela sensação gerada, e nada mais. Eles admitem a própria fraqueza hipócrita, mas o claro dano feito e amplificado em seus tecidos vitais é evidente... Todos temem as drogas modernas, até mesmo aqueles que as tomam... Mas assim como os fumantes, esse medo é algo distante e subjetivo até que se torne parte da realidade: então ele passa a ser aceito passivamente.
E tudo isso é apenas um motivo para me sentir vazio. Cada um dos pequenos vícios é mais uma capa... A camada de celofane flavorizado artificialmente que impede nossa língua de sentir o gosto verdadeiro da vida... Mas nos dá toda a ilusão de um sabor amplificado que supera a percepção de todos os demais e nos ajuda a degustar a realidade insossa onde cultivamos nossas almas.

The Dope Show

The drugs they say
Make us feel so hollow
We love in vain
Narcissistic and so shallow
The cops and queers
To swim you have to swallow
Hate today
There's no love for tomorrow

We're all stars now in the dope show

There's lots of pretty, pretty ones
That want to get you high
But all the pretty, pretty ones
Will leave you low
And blow your mind

We're all stars now in the dope show

They love you when you're on all the covers
When you're not then they love another

The drugs they say
Are made in California
We love your face
We'd really like to sell you
The cops and queers
Make good-looking models
I hate today
Who will I wake up with tomorrow?

There's lots of pretty, pretty ones
That want to get you high
But all the pretty, pretty ones
Will leave you low
And blow your mind

They love you when you're on all the covers
When you're not then they love another

We're all stars now in the dope show

Marilyn Manson


Somos todos estrelas agora... Cada um com seu vício... Sua camuflagem deplorável para maquilar os medos e as vergonhas... Para afugentar nossos sentimentos verdadeiros e transformar a existência no savoir faire de se lidar com um mundo artificial.
"To swim you have to swallow".
Engolimos tanto que nos afogamos no mar de nossos falsos cachimbos da paz.

 

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